Olá
todos,
Meu
nome é João Pedro Tavares, tenho 25 anos e sou canceriano. Estou sendo um dos
mais novos colunistas do Coletivo Potiguar – senão o mais novo - e este é o
primeiro artigo da minha vida, ao decorrer do tempo espero que as coisas
comecem a desenvolver e eu possa garantir boas colunas para vocês. Mas, primeiramente, eu gostaria de convidá-los para um passeio no meu mundo paralelo, uma conversa
introdutória para marcar minha entrada nesse coletivo de maneira aconchegante,
suave e sem muitas pretensões.
Estou
no último ano da graduação em Artes Visuais na Universidade Federal do Rio
Grande do Norte e fazendo o TCC (trabalho de conclusão de curso), estou me
desvinculando de cinco anos de participação ativa na vida acadêmica, muitas
vezes sendo a minha primeira casa. Esta é uma graduação atrasada como a maioria
dos universitários curiosos que percorrem cada buraco da universidade,
experimentando cada pedaço, disciplina, participando de eventos, colóquios,
representações estudantis, corredores, cantinas, okupações, vendendo comida,
poesias, tocando músicas, fazendo performances e, principalmente, jogando
damas, cartas, war, banco imobiliário, uno, porrinha e biloca em diversas áreas
do campus. Anos de disputa para conquistar a liberdade da vida social, o
possível entendimento profissional e garantir minhas escolhas individuais que
respeitam os meus interesses. A batalha é acirrada, por que muitos dos
professores não sabem o que significa vida e nos empanturram de assuntos, os
mais diversos possíveis, para serem finalizados num curto período de tempo.
Para uma pessoa que gosta de usufruir tudo que está disponível – e com um
pequeno problema de foco – é inundado de tarefas a realizar e desenvolve um
sério problema de conciliação e programação. A melhor resposta para mim ("e para
toda a torcida do flamengo") era dormir pouco, viver mais, aproveitar melhor o
meu tempo e fazer os trabalhos quando desse tempo (leia-se de última hora),
procrastinação era meu lema. Bom, vida de universitário é essa: tentar sempre
estar apertando as porcas de forma atrasada e descontrolada como no filme Tempos Modernos com Charles Chaplin
tentando sempre conseguir fazer tudo mesmo com um patrão apertando um botão
para acelerar o tempo de produção, contribuindo ainda mais para nossa loucura. É um fato. (Uma verdade minha, pelo
menos).
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| (Tempos Modernos "Modern Times" (1936). Longa | 87 min | Comédia, Drama) |
Sempre
fui militante a meu modo, presente em representação estudantil, movimentos
sociais, plenárias, tentando contribuir de alguma forma no desenvolvimento
político e democrático da cidade atuando principalmente em ações de diminuição
da tarifa, pensando sempre na justiça social, na diminuição da desigualdade, na
destruição de hierarquias e dos interesses econômicos do poder público e
privado. A vivência me despertou interesse pela busca de informação,
entendimento político, participação no aparelho político democrático, estando
próximo de setores para melhor entender seu funcionamento. Portanto, o
pensamento político faz parte de mim e, consequentemente, terá frutos nas
minhas produções. Esse conhecimento somou ao meu estudo sobre arte.
Durante
do ano de 2014, muitas coisas aconteceram, foi o ano de Saturno que gerou
bastante conflito, muitos problemas emergiram e todos – pelo menos aqueles que
perpassam "minha bolha" – se puseram diante de problemas que teriam que
solucionar. Muitos daqueles que não entenderam o recado, ainda estão em "órbita" até agora, com uma angústia remexendo por dentro. Eu não estava de fora dessa
frequência, pelo contrário, estava bem ligado às mudanças que o universo estava
proporcionando e preparando para todos. Meu pai teve um tumor e passei a
acompanha-lo a maior parte do tempo, o que hoje resulta em nove meses de
internato. Esse fato garantiu uma série mudanças de comportamento e de postura,
obrigando a me reavaliar constantemente sobre minhas ações e decisões,
sobretudo a procura do autoconhecimento.
“A
necessidade é a condição do existente. É o que torna a realidade real” (BERGER,
John, p.16).
Após
uma série de obstáculos sobre questões de saúde e de direito relacionado ao meu
pai, tentei ajudar de alguma forma, como eu não podia interferir na medicação,
tentei pensar substancialmente na alimentação funcional como um método de cura
e aceleração do processo de recuperação do meu progenitor. Conforme as coisas
iam acontecendo, as transformações geravam conhecimentos por experiência que,
por consequência, se relacionavam diretamente com meu entendimento sobre arte.
Tais caminhos me levaram para estudos sobre a macrobiótica, medicina
tradicional chinesa, filosofia oriental, astrologia, terapias diversas,
botânica, ensino da arte e autoconhecimento. Aos poucos fui percebendo que não
é legal acumular conhecimento e que, na verdade, o propósito é compartilhá-lo -
esse tipo de coisa foi se tornando claro para mim -, pois cada um se especifica
de acordo com seus gostos e propósitos de doação para a aquisição do
conhecimento; para que possamos desenvolver um respeito diante das áreas,
pessoas devem compartilhar seus entendimentos e evitar conflitos e equívocos a
cerca de determinados fenômenos, como por exemplo, a Arte Contemporânea e seus
eventos pontuais em terras potiguares¹ dos quais são vilipendiados verbalmente
pela maioria da população.
O
meu objetivo é trazer informações sobre campos da arte, da alimentação e do
pensamento esotérico e há momentos que me darei o direito de fugir dessa lei
quando achar necessário. O pensamento esotérico é de suma importância para mim
por que ele está na ordem da intuição, do abstrato e do imaginário dispensando
a importância da lógica do racionalismo, a dureza da linearidade e as prisões
psicológicas que a mente proporciona. Aqui, o corpo tem inteligência e não há
hierarquia entre os órgãos, é respeitada a sensibilidade do ver e escutar
interiormente e exteriormente. Porque ver
é agir. Quando não se vê com muita clareza, toda ação se torna naturalmente
confusa², buscamos sempre algo, um objetivo e se não tivermos a clareza
necessária e metodologia eficiente para realizar nossas vontades, tenderá a
cairmos na frustração e depressão. Portanto, o que quero proporcionar nas
minhas colunas é o campo da sensibilidade do ver e escutar:
Escutar é uma das
coisas mais difíceis. Nós nunca escutamos. Estamos sempre a escutar nossos
próprios pensamentos, nossas próprias ideias, nossos próprios conceitos, as
normas que devem reger nosso comportamento. Estamos interessados em nossas
ocupações, nossos problemas, nossas aflições, e temos soluções e explicações
próprias ou as explicações e os ditos de outra pessoa, que respeitamos e
tememos – que é a mesma coisa.
O ato de escutar – tal como o de
ver – é, com efeito, uma das coisas mais difíceis que há. O ver uma coisa muito
claramente exige-nos toda a atenção – ver uma árvore delineada contra o
crepúsculo, ver claramente cada um dos seus ramos, sua beleza, sentir a
intensidade da luz que bate na folha, a forma do ramo, do tronco, ver e sentir
a totalidade da árvore e sua beleza. Para ver, é preciso estar-se altamente
vigilante, atento. Mas, se a mente estiver ocupada, não se poderá ver a árvore
em toda a sua excelência; ou, se a mente estiver a interpretar, a dar-lhe uma
denominação botânica, estará então distraída. Por conseguinte, não se estará
vendo muito claramente. De modo idêntico, não sereis capaz de ouvir, de escutar
muito claramente se vossa mente não estiver profundamente interessada, não
estiver participando no que se está dizendo, de maneira completa e não parcial.
E, não é possível aplicar toda a atenção, quando se diz: “Concordo com isto e discordo daquilo”; ou quando se compara o que se está dizendo com o que já
sabe; ou se traduz o que se ouve segundo a própria experiência, os próprios
conhecimentos; ou a “cultura” de que o indivíduo faz parte.
Assim, o homem que escuta deve
estar perfeitamente cônscio de tudo que se diz; e não poderá estar atento se se
limitar a ouvir palavra e a opor-se a elas, ou se pretender apenas confirmar
sua opinião pessoal. Nós não estamos examinando opiniões. (KRISHNAMURTI, 1966,
p. 21-22)
A sensação que
me interessa criar aqui é um espaço de partilha, de observação, a busca pela
conquista da idealização da escuta que Krishnamurti explica na citação
supracitada. Sobretudo, perceber e sentir aquela informação que é passada, um
treinamento pra vida e suas sutilezas.
Estou oferecendo apenas uma forma de
ver, sem que qualquer um de nós procure
persuadir quem quer que seja a aceitar ou rejeitar alguma coisa³, cabe aqui
a averiguar a si próprio e perceber a informação que está suspensa, se
participa do seu inventário ou não. Utilizo as palavras de Saramago: “Convencer
é colonizar”, e não estou afim de colonizar ninguém, prefiro garantir colaboradores de sentido.
Espero que eu possa contribuir com artigos mensais dialogando sobre diversos campos para somar à natureza livre que compõe esse coletivo. :)
Obrigado pela atenção e pelo tempo que você dispôs a ler esse artigo.
Notas:
1 Em 2010, o artista Pedro
Costa e sua performance do terço retirado do ânus no XIII Salão de Artes
Visuais do Rio Grande do Norte (Clique aqui); Em 2013, o grupo Cruor Arte Contemporânea e a instauração
cênica ‘Corpo Livre’ realizada no campus UFRN (Clique aqui); OkupaGarden 2013 (Clique aqui); Em 2014, “Homossexualidade é progresso”, obra
polêmica na exposição Elefante de Marcelo Gandhi (Clique aqui); Ainda em 2014, Caninga, performance de Paula
Salazar. (Veja aqui as fotos).
2
KRISHNAMURTI, 1966, p. 21
3
KRISHNAMURTI, idem, p. 23
Referências:
BERGER,
John. Passos em direção a uma pequena teoria do visível. In: Bolsões de Resistência. São Paulo:
Editorial Gustavo Gili, Barcelona, 2004.
KRISHNAMURTI.
Viagem por um mar desconhecido.
Trad. Hugo Veloso. Editora três, São Paulo, 1973.



1 comentários:
ComenteCara, que texto bacana. Li seus dois artigos, quero beber mais disso. Sucesso para você e suas produções textuais. Tudo muito bem fundamentado. Saúde para seu pai ;)
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