Aqui estou com mais uma resenha reflexiva. Menos para expor a ideia da obra, e mais para faze-los refletir sobre a nossa realidade. Desta vez, pretendo não revelar muitos spoilers, e não irei fazer uma reflexão final, já que a narrativa reflete por si mesma. Apenas tomem consciência de que existe uma rasa tentativa de compreender o autor, mas não há de fato aqui não há de fato, uma vontade de separar o significado que o autor quis passar e a significação que eu leitor quis compreender.
Coração das Trevas foi escrito em 1902 por Joseph Conrad. Segundo a Wikipédia[1],
ele nasceu em 1857 e morreu em 1924. Seu local de nascimento é Berdichev, Kiev,
Império Russo para a época, mas se tratava da região da Polônia. Mesmo contendo
esta informação sobre seu nascimento, ele é definido como autor britânico. Para
entender isso, precisamos compreender sua história.
Conrad foi educado na Polónia ocupada pela Rússia. O seu pai, um aristocrata empobrecido de Nałęcz, foi escritor e militante armado, sendo preso pelas suas actividades contra os ocupantes russos e condenado a trabalhos forçados na Sibéria. Pouco depois, a sua mãe morreu de tuberculose no exílio, e quatro anos depois também o seu pai, apesar de ter sido autorizado a voltar a Cracóvia. Destas traumáticas experiências de infância durante a ocupação russa é possível que Conrad derivasse temas contra o colonialismo como no romance Heart of Darkness (Coração das trevas). A sua última obra publicada em vida foi 'The Rover' (1923), onde conta a história de Peyrol, um pirata que decide reformar-se. Foi colocado sob os cuidados de seu tio, uma figura mais cautelosa do que qualquer um de seus pais, que não obstante, permitiu que Conrad viajasse para Marselha e começasse sua carreira como marinheiro com a idade de 17 anos. Em 1878, depois de uma tentativa falhada de suicídio, passou a servir num barco britânico para evitar o serviço militar russo. Aos 21 anos tinha aprendido inglês, língua que mais tarde dominaria com excelência. Conseguiu, depois de várias tentativas, passar no exame de Capitão de barco e finalmente conseguiu a nacionalidade britânica em 1884. Pôs pela primeira vez o pé em Inglaterra no porto de Lowestoft, Suffolk, e viveu em Londres e posteriormente perto de Cantuária, Kent. (WIKIPEDIA)
Conhecer, mesmo que
superficialmente, a vida de Conrad, parece de grande importância para
compreender a sua obra. Um polonês que perdendo seus pais para o imperialismo
russo, é adotado pelo seu tio, que o possibilita fazer viagens pelos mares. Passam-se
alguns anos, e Conrad passa a servir em um barco britânico, fugindo do mesmo
imperialismo que matou seus pais. Mais alguns anos e consegue o posto de
Capitão, conseguindo finalmente a nacionalidade britânica, fugindo finalmente
do império russo, tornando-se agora parte de outro império, o britânico.
Sua história de vida parece ter, em
vários aspectos, ligação com a obra que ele viria a criar futuramente. Claro,
todo escrito revela um pouco do seu criador. Contudo, o nível de proximidade da
obra de Conrad e do Coração das Trevas parece ir além da simples influência de
mundo inconsciente. Viagens marítimas, histórias de capitães, imperialismo e colonialismo,
mortes trágicas, e violências ao outro. Com mais ou menos impacto, tudo isso
parece ter se inserido na vida de Conrad. Com mais ou menos frequência, isso
parece ter sido inserido em Coração das Trevas por Conrad.
Coração
das Trevas é uma dupla narrativa, ou narrativa moldura. Quero dizer, existe
uma história dentro da história, e esta última é a que se destaca na obra. A
narrativa é sobre a história contada por Charles Marlow. Ele conta para os
ouvintes (e para o leitor) sobre uma de suas aventuras. Assim como seu criador
(Conrad), Marlow era um marinheiro. Na verdade, Marlow se encontrava sempre na
condição de contratado, mas ele mesmo expõe que sua condição pessoal é de
descobridor.
- Talvez se lembrem de que fui marinheiro de água-doce, durante algum tempo... [...] Como estão lembrados, eu acabava de regressar a Londres depois de uma boa dose de oceanos Índicos e Pacíficos, de mares da China – um fartote de Oriente – [...] Durante algum tempo foi uma beleza, mas depois o descanso saturou-me. Desatei então a procurar um navio [...] Mas os navios é que não reparavam e mim. [...] acontece que em miúdo eu tinha a paixão dos mapas. Ficava horas a olhar para América do Sul, a África ou a Austrália. (CONRAD: 2000. Versão ebook kindle:posição 101)
Neste momento é exposta uma visão de
fascínio quanto ao processo de posse, imperialismo e colonização, em certa
medida, inerentes ao processo de descoberta. Ele vai expor como lhe fascinava
os mapas com zonas em branco. Quase como um sonho infantil, adentrar nestas
zonas seriam sua realização.
Deixara de ser espaço em branco, de maravilhoso mistério – nódoa branca feita para um rapaz sonhar glórias. Transformando-se em lugar de trevas. De especial tinha um rio, enormíssimo rio que podíamos ver no mapa e parecia uma cobra imensa desenrolada, com a cabeça no mar e o corpo em torcido repouso numa região ampla, rabo a perder-se nas profundezas do território. (CONRAD: 2000. Versão ebook kindle:posição 112)
Já
no início percebemos o rompimento do deslumbre. De vazio branco a ser descoberto,
à lugar de trevas, significando ainda lugar de mistérios, mas do tipo que sendo
exposto, mostrará apenas horrores, tragédias e incompreensões.
Marlow é, portanto, um marinheiro,
que cansado de navegar por aguas doces, procura se realizar por terras
desconhecidas. Consegue, a partir de contatos familiares, um emprego em uma
importante Companhia de Comércios, que o manda, em um navio a vapor, para o
grande rio na África. Aqui, o navio a vapor talvez simbolize mais do que
simplesmente maior potência, e, portanto, maiores caminhos a navegar. Suponho
que o navio a vapor simbolize em parte, a sociedade moderna, o progresso
moderno. Talvez não sozinho, mas o navio a vapor faz parte de uma construção
simbólica do que se tratava a modernidade das civilizações imperialistas e
ocidentais.
[...] “Tenho uma teoriazinha; e vocês Messieurs que para lá vão deviam ajudar-me a prova-la. Seria a parte que me cabe entre as vantagens que a minha pátria colhe com a posse de uma colónia tão magnificamente dependente. Quanto à riqueza propriamente dita, deixo-a aos outros. (CONRAD: 2000. Versão ebook kindle:Posição 179)
A apatia com relação a compreender o outro passa a
ficar evidente dentre os personagens que cercam o (segundo) narrador. O outro
só se torna interessante quando tem utilidade, seja ela mercantil ou
científica. Há ainda aqueles personagens que expressam algo além destes vieses utilitários.
Existem aqueles que expressam uma certa preocupação com os povos da colônia,
Falou-me em libertar milhões de ignorantes dos seus horrorosos costumes, ao ponto, palavra de honra, de eu começar a sentir-me pouco à vontade. Atrevi-me a sugerir que o objetivo da Companhia era ter lucros. [...] Bem estranha é a forma de as mulheres fugirem à realidade. Vivem num universo muito seu, e nuca houve nem haverá nada que seja possível comparar-lhe. Nele tudo é bonito demais [...] (CONRAD: 2000. Versão ebook kindle:posição 191)
Mesmo
estes que não compreendem o outro apenas como uteis, os compreendem como
bárbaros, à espera do processo civilizatório. E mesmo esta “nobre” causa é
desacreditada por aqueles que vivem a “vida real”. Marlow encara as mulheres
como seres que vivem em mundos perfeitos, quase como em sonhos, e portanto, não
aguentariam sequer um dia do mundo real, do trabalho e dos problemas. Por isso,
mesmo este “nobre” discurso é desqualificado pela condição social de quem o
pronuncia. O discurso é constrangido por ser pronunciado por uma mulher.
A mulher é acusada de viver um
sonho, mas o próprio Marlow admitiu anteriormente que sonhava com os espaços
brancos no mapa. Bem, a desilusão veio assim que ele pisou nas novas terras.
Noutra ocasião foi um homem branco de farda desabotoada que acampava no caminho com uma escolta armada de zanzibares magros, muito hospitaleiro e festeiro para não dizer bêbado. Olhava pela conservação da estrada, explicou ele. Não posso, no entanto, dizer que tenha visto qualquer estrada ou conservação de estrada, não ser que o corpo de um negro de meia-idade encontrado três milhas adiante com um orifício de bala na testa, possa considerar-se melhoramento viário. (CONRAD: 2000. Versão ebook kindle:posição 357)
Na estrada, com um buraco de bala na
cabeça, um bárbaro, destes que precisavam ser civilizados.
O barracão não passava de um braseiro furiosamente incandescente. Ali perto espancavam um negro. Diziam, sabe-se lá porquê, que era o causador do incêndio; certo é que ele dava horrorosos gritos. Durante vários dias iria vê-lo com ar de muito doente, sentado num pedaço de sombra a procurar refazer-se; acabou por se levantar, desaparecer – e o mato abriga-lo sem fazer nenhum ruído, no seu seio. Nessa noite, quando me acerquei da fogueira vindo do escuro, dei comigo atrás de dois homens que conversavam. Pude ouvir pronunciar “Kurtz”, e as palavras “lucrar com este lamentável desastre. (CONRAD: 2000. Versão ebook kindle:posição 424)
A morte, a violência e a tragédia
não provocam um mínimo de sensibilidade (positiva) por parte dos colonizadores.
Eles se interessavam mais pelo marfim, mais pelo lucro, do que pela vida
humana. A loucura e a barbárie se mostrava não nos nativos, mas nos
imperialistas. E entre os famintos e o marfim estava Kurtz, aquele que deveria
ser resgatado de tais terras bárbaras, aquele que deveria ser levado de volta à
civilização.
O processo de imperialismo e
colonialismo é cercado por violência, miséria, opressão e outras mais profundas
barbáries. Mas claro, junto a isso tudo existe um ideal. Sempre existe um
ideário civilizador. Porque bárbaro é sempre o outro. O Coração das Trevas reside
na Colonia, e o coração de trevas no colonizador.
Referência da obra:
CONRAD, Joseph. Coração das Trevas.
Editorial Estampa. Bibliotex, S.L. 2000. Versão digital


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