Então você acordou?
Consegue se lembrar de minha história? Não importa. Vamos continuar. Minha
história já está chegando ao fim, não que eu vá morrer no final dela ou algo
parecido, mas é o final do que você precisa saber é do como eu sou o que sou.
Alguns filhotes esquecem com o passar dos anos que a transformação é algo complicada e dolorosa, em certo ponto ate mesmo traumática, acredito que completamente impossível para um recém transformado. Dai então estava lá eu, na casa de Katarina, com meus três metros sobrenaturais e sem saber o que fazer, eu já conhecia algumas coisas do mundo garou, mas nada além de que eles eram guerreiros da Mãe, que lutavam para nos proteger de uma força metafisica. Bem, eu conhecia a gangue dos Coelhos Mortos, de vez em quando eles bebiam em meu bar, mas eu não sabia nada a mais, não sabia onde eles moravam, nem muito menos qual o telefone deles, além do mais, como diabos eu iria usar o telefone com os meus dedos da grossura como eles estavam, para piorar minha mulher não tinha telefone em casa, ela dizia que isso era ruim de se ter em casa... ela nem tem tv, o máximo que ela tem é uma geladeira que mal fica ligada. Tentei me acalmar e esperei. Fiquei sozinho no AP, pois Katarina saiu para buscar ajuda de alguns conhecidos.
Parei, me sentei, procurei entender o que melhor estava acontecendo, eu ainda imaginava que estava sonhando. Com algum tempo comecei a escutar o som de gralhas ao longe, um calafrio percorreu meu corpo e uma inquietação me pegou. Me lembrei das histórias de terror que meu pai adorava me contar, de como criaturas sinistras movidas pela loucura sentiam o cheiro do medo, de como elas surgiam misteriosamente do ar e sequestravam os garotos e levavam para suas tocas, lá essas criaturas faziam o que queriam e depois eles incitavam a loucura nos fracos que não lutavam. Meu pai me colocava para dormir contando histórias de como os Uivadores da Wyrm agiam. Depois que afastei a ideia de outras criaturas invadirem a casa e me sequestrarem, eu percebi uma pena negra cair em meu colo, eu estava deslizando para a Umbra, mas algo me fez voltar, o grito de uma gralha na janela, ela era enorme, bicou duas vezes a janela e olhou para mim. No outro instante a janela se abriu e o corvo entrou. Porra, eu me assustei pra caralho, um puta corvo de um metro e meio, mais parecendo uma ave de rapina fez a janela abrir sozinha e agora ele estava vindo em minha direção.
Quando eu mostrei para
ele minhas garras e meus dentes, ele voltou para a janela e de sua garganta
veio o som da voz de um humano.
- Você é William McCloy? – falou o corvo.
- Quem é você e o que você quer?
- não, não, na verdade eu não quero nada de mais, só conversar e saber se você realmente é quem me falaram para encontrar, Canta-Com-Os-Corvos me mandou aqui para lhe acalmar. – e riu – mandou dizer que eles já estavam vindo para lhe buscar, e pediu para você não fazer merda. Tipo, sair por ai mostrando seu lindo corpo, brigar com alguém, chamar a atenção dos mortais, essas coisas estupidas que os Luas cheias fazem... bem, já vi que metade de minha missão já está concluída, a outra metade é colocar juízo na sua cabeça e fazer você não contar para ninguém que coisas como você
existe... aliais você tem comida ai, to morrendo de fome, serio, me arruma uma comida, acredito que vai ser bem legal nos comermos alguma coisa, você deve está com fome.
Bem... eu que já não duvidava mais de nada, não questionei a capacidade de um corvo falar, afinal, eu era a porra de um lobisomem grande pra cacete. A realidade era mais do que eu conseguia compreender. Então o convidei para entrar e conversar mais, dei pão para ele e tudo mais que ele me pediu, afinal de contas, ele estava me contando muita coisa que eu não sabia.
Quando eu convidei o corvo para a cozinha, vários outros voaram para dentro da sala e começaram a conversar, todos ao mesmo tempo e gritando, o som era ensurdecedor. Ate que em um momento todos calaram. Uma nevoa surgiu do nada, todos os corvos olharam para mim com olhos profundos e negros. No centro deles, uma figura que lembrava vagamente uma mulher com um machado surgiu. Ela exalava fúria e destruição, os corvos calados saiam de perto dela e alguns pulavam para os ombros dela, o espirito que ali surgiu carregava um machado. Hahahaha, pense em um medo que senti, acho que foi o maior medo que já senti em minha vida, a criatura se aproximou de mim e o corvo em meu ombro falou “corra não, vai ser pior”.
A criatura vinha em minha direção e eu paralisado de medo sem saber o que fazer apenas observei. O espirito apontou para mim na direção de meu peito, quando olhei para ver o que tinha lá, o machado do espirito sacudiu no ar e me acertou. Naquele instante eu estava morto. Ou era aquilo que eu imaginava.
Mas não, eu estava vivo, mas estava em outro lugar, em um lugar escuro e sombrio, em cima de uma colina, o espirito estava ao meu lado e o corvo ainda em meu ombro e eu estava em pé, a vista era a da cidade de Nova Iorque, sendo que completamente diferente, teias de aranhas cobriam a cidade e uma nuvem estranha de espíritos, que mais tarde eu fiquei sabendo que eram Esguios, sobrevoava a cidade. Uma forte tempestade de raios vinha do leste com trovões e relâmpagos tão monstruosos. Desta vez eu não senti medo. Quem estava a meu lado era Morrigu, minha mãe, ela não falou que era, mas eu sentia que era, mesmo sobre todo aquela camada de ódio e gosto pela morte, eu sentia o amor maternal vindo dela.
Depois de contemplar por completo aquela visão, minha mãe fincou seu machado no chão, o corvo pulou de meu ombro e pousou no cabo do machado e eu conseguia ver pelos olhos do corvo ao mesmo tempo que eu via pelos meus olhos, eu senti seu desejo por conhecimento e sua sabedoria. Ele olhou para a cidade mais uma vez e eu também, ao mesmo tempo que eu contemplava aquela horrenda cidade eu também contemplava suas ruas e suas vielas sobre os olhos dele, vi garous lutando, vi garou morrendo, vi garous sofrendo. Vi segredos que não posso contar-lhe pois são mistérios, vi as pessoas e vi ate o que esqueci que tinha visto e o que esquecerei que vi e ate mesmo aquilo que nunca mais queria ver. Vi aranhas monstruosas capturando homens e lobos em sua teia, para devora-los e depois regurgita-los em mais teias, vi lobos lutando na pele de humano com armas humana, vi eles deslizando pelas teias e algumas vezes resgatando garous da aranha. Mas eu vi ela crescer e vi a nuvem crescer. Vi uma enorme venda se abrir na cidade e formar uma enorme cicatriz no mundo, eu vi tudo isso. Eu tendo o porque de Nova Iorque ser a Cicatriz do mundo, eu vi o pus que jorra dela atingir os humanos e torna-los mais uma papa hedionda, eu vi do pus surgir criaturas. Eu contemplei o fim e inicio e o meio.
Eu vi o campo de batalha e o que mais vi foi os garous perdendo seu tempo lutando entre si em lutas mesquinhas enquanto gaya chorava pela dor e por seus filhos.
Quando eu retornei filhote, eu percebi que nunca sai da Telluria, mas eu estava tão cansado como se tivesse ido e voltado mil-vezes-mil-vezes. Eu acordei e estava lá, em pé mais uma vez na casa de katarina, com os corvos ao meu lado todos grasnando. Mas também vi Canta-Com-Os-Corvos, ele estava em crinos, vermelho como o sangue, carregando um machado Fianna, o corvo que estava comigo estava nele agora, seus olhos eram brancos cegos, mas mesmo assim ele me olhava e sorria, apontou com seu machado para a janela lateral e lá eu vi a Escócia, eu vi a guerra, eu vi a Chama Negra e eu vi que eu estava ali, mesmo sem saber onde eu estava, eu estava ali. A janela se fechou e o vento uivou forte e alto, ele olhou para mim e me golpeou no meio dos meus olhos com seu machado.
Eu sou você...(corvos)
Eu sou
você...(Canta-Com-Os-Corvos)
Eu sou você...(Eu
cantei)
Mergulhei no mar azul.
No vento avoei
Eu quis ver o sol
Mergulhei no ar azul
No vento avoei
Eu quis ser o sol
Para entrar pela janela
Dos olhos do que não ver
Que eu sou eu
Que sou fulano, sou
sicrano, sou você
Quero entrar pelas
janelas
Dos olhos de quem não
ver
Eu sou você(Corvos,
Canta-Com-Os-Corvos e eu cantei)
Sustenta esse coro, eu
sou você
No pé da garganta, eu
sou você
Na chuva chovendo, eu
sou você
A poeira alevanta eu sou
você
Um sopro na rua, eu sou
você
Sustenta a pisada, eu
sou você
No pé da garganta, eu
sou você

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